6 de julho de 2012

Um pequeno peluche

   Uns olhos castanhos fixam-me, não transmitem uma sensação nem um pensamento, são apenas uns olhos grandes e penetrantes que me fitam no meio de uma multidão. Começo a ter a sensação de que eles estão a tentar procurar algo dentro de mim, provavelmente uma emoção ou um gesto. Vejo o meu reflexo numa montra e assusto-me porque estou com os olhos semicerrados, como se estivesse a fazer um esforço enorme para encontrar alguma coisa, além disso estou com uma cara mesmo esquisita. Só falta estar com uma lupa na mão e dizer '' Elementar meu caro Watson! ''.
   Com tudo isto esqueço-me de ver a quem pertencem aqueles olhos e por detrás de uma mulher alta e magra, espreita com roupas sujas e velhas uma menina pequenina. Essa senhora que provavelmente é a sua mãe está sempre a dizer para ela se despachar ou então perdem a camioneta, a menina diz-lhe que quer o seu ursinho e como resposta apenas ouve a mãe a berrar-lhe ''Não tenho tempo nem dinheiro para te comprar outro!''.
   Por muito irónico que pareça está uma máquina cheia de peluches ao meu lado, daquelas que têm uma pinça e escolhe-se o boneco que se quer. Instintivamente corro para a máquina, tiro uma moeda do meu bolso e tento tirar um urso que está lá, quando estou mesmo a puxá-lo para cima ele escorrega e não o consigo voltar a agarrar. Ao ver a menina e a mãe afastarem-se, esforço-me para conseguir agarrar pelo menos alguma coisa, tiro outra moeda e consigo apanhar um coelho com uma cenoura na pata. 
   Antes de entrarem para a camioneta entrego-lhe o peluche e os seus olhos enchem-se de alegria, satisfação e agradecimento. Olha para mim pousa a mão no meu braço e diz:
   - Ó obrigada o Sr. Fofinho ia ficar muito feliz por o meu próximo amiguinho ser um coelho. É que ele um dia disse-me que tinha um fraquinho por uma coelha chamada Saly. Mas não lhe digas! Ele iria ficar chateado se soubesse que eu contei-te isto.
   - Não te preocupes eu não lhe digo nada!
   Passo-lhe a mão pela longa trança preta que lhe cai pelo ombro e digo:
   - Anda lá vai ter com a tua mãe! Não queres ir a pé pois não?
   - Sim senhora!
   Vejo-a entrar para a camioneta e já não é um olhar vazio que me persegue mas sim um olhar feliz e entusiasmado, pronto para viver aventuras com aquele peluche. A camioneta afasta-se e ela diz-me adeus, enquanto abraça o seu novo amigo. Sinto-me feliz!
   Quando estou triste lembro-me daquele dia e começo a sorrir porque sei que fiz uma pessoa feliz com apenas um pequeno gesto para mim mas um enorme para ela.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Elimino comentários ofensivos.